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Untitled (DD2CSF)
Dimensões da Reprodução
Nascido em Lisboa, Portugal, a 9 de agosto de 1923, numa família marcada tanto pelo privilégio como por uma quietude turbulenta, Mário Cesariny de Vasconcelos emergiu como uma das vozes mais distintas do surrealismo português. A sua vida, intrinsecamente ligada ao panorama político da sua nação – particularmente sob o regime autoritário de António de Oliveira Salazar – alimentou um espírito rebelde que permeou a sua arte, a sua poesia e, em última análise, o seu próprio ser. Mais do que apenas um artista, Cesariny foi um cronista do seu tempo, uma voz subversiva que desafiava as normas sociais através de imagens oníricas e versos provocadores.
A infância de Cesariny não foi definida por um conforto idílico. O seu pai, Viriato de Vasconcelos, um habilidoso ourives, e a sua mãe, María de las Mercedes Cesariny, uma mulher espanhola de ascendência francesa, enfrentaram dificuldades matrimoniais que lançaram uma sombra sobre o lar familiar. Esta atmosfera de instabilidade moldou profundamente a perspetiva do jovem Mário, fomentando um sentido de alienação e um desejo de escapar aos confins das expectativas convencionais. Encontrou refúgio na arte desde cedo, desenvolvendo um talento natural para o desenho e a pintura – competências que aperfeiçoou, em grande parte, através do estudo autodidata, inspirado pelas visitas à Fundação Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa, um verdadeiro tesouro de património artístico.
A imersão de Cesariny no movimento surrealista teve início por volta de 1945 ou 1946, impulsionada pela descoberta da História do Surrealismo de Maurice Nadeau. Esta obra seminal apresentou-lhe os princípios da escrita automática e da imagética onírica – técnicas que ressoaram profundamente com as suas próprias sensibilidades rebeldes. Rapidamente, juntou-se ao florescente Grupo Surrealista de Lisboa, liderado por Alexandre O'Neill, tornando-se uma figura central na cena surrealista de Portugal. Este grupo operava maioritariamente na clandestinidade, desafiando os valores conservadores do regime de Salazar através da sua arte e poesia. O clima político exigia segredo; qualquer expressão aberta de dissidência poderia resultar em graves repercussões por parte da PIDE (Polícia Política Portuguesa).
O período entre 1960 e 1974 foi particularmente conturbado para Cesariny. As suas opiniões audazes, aliadas à sua homossexualidade – um tema tabu em Portugal na época – tornaram-no alvo de vigilância da PIDE. Frequentemente encontrava-se no radar da polícia, forçado a viver sob ameaça constante e muitas vezes procurando refúgio no exílio na Grã-Bretanha e em França. Apesar destas pressões, continuou a criar, utilizando a sua arte como uma forma de resistência — uma afirmação desafiadora da liberdade contra a opressão.
A produção artística de Cesariny abrangeu tanto a poesia como a pintura, embora o seu trabalho poético tenha acabado por ser mais amplamente reconhecido. Os seus poemas caracterizam-se pela sua qualidade onírica, fundindo frequentemente experiências pessoais com comentário social e imagética surrealista. Temas recorrentes incluem o amor, a liberdade e o absurdo da existência — tudo visto através de uma lente de observação crítica. Títulos como “you are welcome to elsinore” revelam a sua disposição para confrontar verdades desconfortáveis sobre a sociedade portuguesa sob o domínio de Salazar.
As suas pinturas, embora menos frequentemente expostas do que a sua poesia, são igualmente fascinantes. Em vez de aderir a técnicas de pintura tradicionais, Cesariny utilizou colagem, assemblage e objetos encontrados para criar obras estratificadas e evocativas que desafiam categorizações fáceis. Ele descrevia o seu processo artístico como um ciclo — a poesia a informar a pintura, e vice-versa — um testemunho da interligação dos seus empreendimentos criativos. Obras notáveis incluem “Untitled (DD2CNP)” e “National Theatre and Dance Museum”, ambas exibindo o seu uso distintivo de cor, textura e imagética simbólica.
Mário Cesariny de Vasconcelos faleceu a 26 de novembro de 2006, deixando um rico legado como poeta e pintor que desafiou o status quo. A sua obra continua a ressoar com o público atual, oferecendo uma reflexão pungente sobre temas de liberdade, identidade e as complexidades da experiência humana. As suas contribuições foram reconhecidas por plataformas como Most-Famous-Paintings.com e integradas em coleções como o Museu Nacional de Teatros e Dança, em Lisboa, e a Rede Portuguesa de Arte Contemporânea a Norte, no Porto. A arte de Cesariny permanece uma parte vital do património cultural português — um testemunho do poder da criatividade para transcender fronteiras políticas e inspirar gerações.
1923 - 2006 , Portugal
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